A culpa também é deles

Guiados pelo curto prazo, investidores toleraram as falhas de governança. Na verdade, eles não veem vantagem financeira em custear a análise das práticas corporativas

Especial/Gestão de Recursos/Edições/Temas/Cobertura ICGN 2009/Reportagem / 1 de agosto de 2009
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Depois que a bomba explodiu nas instituições financeiras, farpas foram disparadas para todo lado. Reguladores, conselheiros, executivos, agências de rating, consultores, auditores. Nenhum deles conseguiu esconder sua parcela de culpa na mais recente crise de governança corporativa. A novidade desta vez é que nem mesmo os investidores foram poupados. Supostamente defensores das boas práticas de governança, eles estão sendo acusados de serem muito melhores no gogó do que na prática. Ignoraram a forma como as companhias estavam gerenciando os seus riscos, a efetividade dos boards e os conflitos de interesse. Abarrotados de dinheiro em razão da farta liquidez mundial, investiram com pressa, de preferência em empresas com potencial de ganhos rápidos.

“As regras de governança já são muito boas em vários países do mundo. A parte que está faltando é a que cabe aos acionistas”, afirmou Colin Melvin, presidente da área de “equity ownership” de um dos grupos mais ativistas do mundo, o inglês Hermes. Para ele, a ausência de vigilância e de interesse dos investidores deve-se a uma visão predominante de curto prazo. Mesmo os fundos de pensão, que deveriam olhar para o longo prazo devido à natureza dos seus investimentos, delegam recursos à gestão de profissionais guiados pelo imediatismo. “É uma contradição”, disse à CAPITAL ABERTO. (veja entrevista na página 18).

Michael Murray, gestor sênior de portfólio da australiana AMP Capital Investors, observa que esse não é só um problema dos investidores. Os analistas também estão voltados ao curto prazo, e por uma razão simples: “É muito mais fácil comunicar os fatores mais imediatos”, afirma. Justamente por ser complexa, a análise de governança não sai nada barata. Exige várias visitas às companhias, tempo para pesquisa e conversas com os públicos relacionados. “A dificuldade está em como ganhar escala com esse trabalho”, declarou Simon Wong, presidente do comitê de responsabilidades dos acionistas da ICGN. Na opinião de Phil Armstrong, da International Finance Corporation (IFC), enquanto os investidores não virem um sentido econômico em analisar governança, não vão gastar dinheiro com isso. “Conheço uma gestora de recursos que investe em 7 mil companhias no mundo e tem apenas um analista de governança.”

O mundo pode mudar

A tendência, contudo, é de que a negligência com as melhores práticas se torne mais perigosa à medida que os centros de potencial de riqueza se deslocam para os mercados em desenvolvimento. “No geral, as companhias desses países, com uma exceção honrosa ao Brasil, estão bem menos atentas às questões de governança”, constatou Armstrong. Embora onerosa, a análise das práticas corporativas tende a se tornar, portanto, mais necessária nos próximos anos, ao menos para os investidores que estiverem interessados nos retornos promissores dos
mercados emergentes.

Tampouco faltam desafios aos que já estão convencidos dos benefícios de uma postura mais ativista. Para Anne Simpson, gestora sênior da CalPERS — o fundo de pensão dos funcionários da Califórnia, com investimentos de US$ 188,5 bilhões —, o próximo passo é fazer uma análise mais integrada das companhias, unindo os aspectos financeiros aos de governança, ambientais e sociais. “Precisamos juntar o ESG (sigla para environmental, social and governance) ao F (finance)”, aconselha. Segundo ela, esses são os quatro fatores que determinarão o valor das empresas no futuro. Anne também chama atenção para as oportunidades que os investidores de ações deixam passar ao não se unir em uma estratégia de longo prazo. “Não importa se é um private equity, um hedge fund ou uma carteira de infraestrutura. Nós ganharíamos força se atuássemos juntos.”

Rédeas mais curtas

Enquanto isso não acontece, qual a solução? Uma das possibilidades defendidas por alguns participantes é aumentar a regulação dos investidores. Melvin, do Hermes, adorou a ideia. “Acho que poderíamos pensar em algo que criasse obrigações no modelo “comply or explain”, sugere. Stephen Davis, diretor do centro de governança corporativa da Universidade Yale e coautor de Os Novos Capitalistas, concordou. “Está mais do que na hora de termos uma regulação que exija dos investidores estarem acordados e reportarem adequadamente aos seus clientes.”

Peter Montagnon, chairman da ICGN, enxerga dificuldades em se estabelecerem padrões de comportamento para os investidores, uma vez que eles têm interesses distintos entre si. “Mas vejo espaço para um regime ‘comply or explain’”, reconheceu.

A ICGN, inclusive, já tem um código de comportamento para os seus associados. Anne Simpson defendeu que essas regras venham no sentido de exigir mais transparência e não de obrigar ou vetar escolhas. John Wilcox, chairman da consultoria Sodali e ex-dirigente do fundo TIAA-Cref, concordou que algumas exigências seriam muito bem-vindas.

Um exemplo, segundo ele, seriam normas para disciplinar as influências políticas na escolha do corpo diretivo das fundações, observadas em vários países. Richard Breeden, ex-presidente da SEC, chamou a atenção para o risco oposto: se as regras forem federais, é preciso tomar cuidado para que não se abra uma brecha para influências políticas.
A conferência da ICGN terminou com a presença do ex-vice-presidente norte-americano e maior defensor da sustentabilidade corporativa nos últimos tempos, Al Gore. Para ele, a remuneração variável de investidores em bases trimestrais ou anuais é o grande problema a ser combatido. Ela incentiva os profissionais a pensarem em retornos rápidos e estes, por sua vez, fazem o mesmo com as companhias em que investem. O autor do documentário Uma Verdade Incoveniente citou dados de uma pesquisa que mostra que, há 30 anos, nos Estados Unidos, o período médio de manutenção das ações em carteira seria de sete anos. Agora, estaria entre oito e dez meses. “Talvez isso não combine com a exata definição de investimento, mas sim daquilo que se costuma praticar nos cassinos”, ironizou. Ele recomendou lembrar que as pessoas fazem aquilo que são pagas para fazer. “Se você gerenciá-las remunerando com base em ciclos de curto prazo e pedir a elas que digam que pensam no longo prazo, elas farão as duas coisas.”




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