2009 já é carta marcada

Enquanto a queda do consumo impacta os resultados, Buffett usa o “float” dos seguros para garimpar oportunidades. E avisa logo que o ano não vai ser bom

Especial / Gestão de Recursos / Edições / Temas / Berkshire Hathaway 2009 / Reportagem / 1 de junho de 2009
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O presidente do conselho, CEO e chefe de investimentos da Berkshire Hathaway, Warren Buffett, provavelmente não contava com a possibilidade de encarar uma fase tão difícil aos 78 anos. Em 2008, o faturamento da holding despencou quase 9%, de um total de US$ 118,24 bilhões no ano anterior para US$ 107,78 bilhões. O lucro líquido, por sua vez, foi achatado em 62,2%, do alto de seus US$ 13,21 bilhões para US$ 4,99 bilhões, na mesma base anual de comparação. Na assembleia, Buffett deixou claro que espera resultados ruins para todo o ano. E os números do primeiro trimestre divulgados uma semana depois esclareceram o seu pessimismo: fortemente afetados pela queda no consumo dos norte-americanos e os preços das ações em bolsa, os lucros de US$ 940 milhões no período de janeiro a março de 2008 transformaram-se em prejuízo de US$ 1,534 bilhão. “Os resultados operacionais vão voltar aos níveis históricos normais, mas não sabemos exatamente quando”, disse o relatório assinado pelo CFO, Marc D. Hamburg.

 A Berkshire se destaca por investir em empresas apoiadas no poder de fogo do consumidor norte-americano. De doces a purificadores de água, passando por “casas motorizadas” (trailers), os produtos fabricados por elas dependem da renda do cidadão médio. Como não poderia deixar de ser, essas companhias foram golpeadas pela recessão. E impactaram os lucros da Berkshire no segmento de manufaturados, serviços e varejos, que baixaram de R$ 487 milhões para R$ 258 milhões no primeiro trimestre deste ano.

O setor de energia, que aparecia muito bem no relatório anual de 2008, já não apresentou a mesma evolução nos primeiros três meses deste ano. Com David Sokol à frente do conselho de administração — um dos nomes apontados como sucessor de Buffett no comando da Berkshire —, a MidAmerican Energy Holdings, empresa na qual a Berkshire tem 89,5% de participação, teve resultados recordes em 2008. As receitas operacionais antes de juros e impostos somaram US$ 2,20 bilhões, 5,6% a mais que em 2007, e o lucro líquido subiu 55,6%, para US$ 1,85 bilhão. Este ano, a coisa já mudou um pouco de figura. Os números foram atingidos pela redução na cotação do gás, que é imediatamente repassada aos consumidores, e pelo menor volume de vendas, decorrente de temperaturas mais altas. Os lucros da MidAmerican baixaram de R$ 316 milhões para R$ 203 milhões no primeiro trimestre de 2009.

Para compensar — não o suficiente a ponto de garantir um incremento na última linha do balanço —, o segmento de seguros vive uma boa fase. A Geico, seguradora de automóveis “low cost” de Buffett, se deu muito bem na crise, quando consumidores com a corda no pescoço saíram à caça de apólices mais baratas. O total de prêmios recebidos cresceu 7,6%, para US$ 229 milhões.

Embora o segmento de seguros responda pela maior fatia dos lucros da Berkshire, não é exatamente vendendo esse produto que Buffett se tornou o segundo homem mais rico do planeta. Seu tesouro está no que ele faz com o dinheiro que seus segurados lhe oferecem a um custo zero. Em dezembro de 2008, essa mina, que ele chama de “float”, somava US$ 58,5 bilhões. “Um dinheiro que não pertence a nós, mas que guardamos e investimos em nosso próprio benefício a um custo menor que zero. Na verdade, recebemos US$ 2,8 bilhões para carregá-lo em 2008. Charlie e eu achamos isso ótimo”, disse no último relatório anual.

Assim como a Geico, o “float” de Buffet encontrou boas oportunidades na crise. Semanas depois do setembro negro, o megainvestidor foi às compras. Com US$ 14,5 bilhões, investiu na fabricante de chicletes Wrigley, no Goldman Sachs e na General Electric. Em março deste ano, arrematou um lote de títulos conversíveis da Swiss Re e, em abril, investiu
US$ 3 bilhões na Dow Chemical. Parte dessas tacadas se refletiu nos rendimentos do “float” no primeiro trimestre, que subiram de US$ 1,089 bilhão para US$ 1,298 bilhão este ano. Somente com essas aquisições, Buffett espera uma receita adicional (somando-se os juros dos títulos e os dividendos das ações) de US$ 2 bilhões em 2009.

Pelo visto, os espaços para comprar barato abertos pela crise são mesmo a grande esperança. “Não vi, nos últimos tempos, oportunidades como essas que tivemos ano passado”, disse Buffett na assembleia. No mais, ele tem poucas expectativas para o resto do ano. “A história do primeiro trimestre tende a ser a de 2009. Seguros irão bem, as elétricas também, e os outros negócios serão atingidos.”

Ainda assim, ele e o vice-presidente da Berkshire, Charlie Munger, estão confiantes no futuro dos Estados Unidos. Na carta dirigida aos acionistas, Buffett ressaltou que o país carregou fardos bem mais pesados que o atual durante o século 20: duas guerras mundiais, recessões, inflações exorbitantes de até 21,5% ao ano na década de 1980, a Grande Depressão dos anos 1930, e períodos com taxas de desemprego de 15% a 25%. Apesar de todos os pesares, o padrão de vida real dos norte-americanos melhorou significativamente durante o século em que o índice Dow Jones saiu de uma base de 66 para 11.497 pontos. “Embora o caminho não tenha sido tranquilo, nosso sistema econômico funcionou extraordinariamente bem ao longo do tempo. Estimulou o potencial humano como nenhum outro e vai continuar fazendo isso”, sacramentou. “Os melhores dias da América estão por vir.”

Mesmo tendo sido o seu pior ano, 2009 é apenas uma fração da longa e bem-sucedida história da Berkshire. Quando se olha o período de 1965 a 2008, os ganhos anualizados de um acionista da companhia alcançam a marca de 20,3%, ante um avanço de 8,9% do S&P 500 no mesmo recorte — considerando-se o valor patrimonial por ação, indicador que Buffett mais gosta de usar. Em todo esse tempo, rentabilizou incríveis 362.319%, ante um retorno de 4.276% do S&P.

Indagados, durante a assembleia, sobre que perguntas acerca da economia mundial eles fazem a si mesmos, os dois sócios preferiram falar das respostas. “Quanto mais me aproximo da morte, mais alegre me sinto com o futuro da economia. (…) Hoje transformamos luz solar em energia e água do mar em água potável”, disse Charlie, com sua perspectiva de passado e futuro legitimada por um bom número de décadas vividas. Buffett também deu sua contribuição para acalentar os sonhos da plateia: “O mundo sempre tem problemas, mas infelizmente esse é o único mundo que temos. (…) Existe um enorme potencial humano e muitas oportunidades. Seus filhos terão uma infância melhor que a de vocês.”


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