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O árduo caminho dos bancos centrais
Aumento da taxa de juros não é remédio perfeito, mas inexiste outra opção tão eficiente para combater a inflação
Alexandre Póvoa é fundador da Valorando Consultoria e autor dos livros “Valuation”, “Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor” | Ilustração: Julia Padula
Alexandre Póvoa é fundador da Valorando Consultoria e autor dos livros “Valuation”, “Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor” | Ilustração: Julia Padula

Muitos perguntam se os bancos centrais do mundo estão no caminho correto ao elevar os juros para conter uma inflação que é predominantemente de oferta. Vivemos uma tempestade perfeita no âmbito inflacionário, que começou com a disrupção das cadeias produtivas por causa do surto de Covid no mundo e que se intensificou com a guerra da Ucrânia, que elevou o preço das commodities em todo o globo. Cabe ressaltar, no entanto, que, em 2020, quando a epidemia começou, o planeta já convivia há mais de dez anos com taxas de juros próximas a zero e até negativas, sobretudo nos países desenvolvidos. Entre 2008 e 2021, o PIB mundial cresceu 3,1%, sendo que, no ano passado, esse indicador subiu 5,8%. O aumento não é irrisório, e é um sinal de que houve crescimento da demanda também.


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O fato é que, diante da desaceleração econômica — as previsões para o crescimento do PIB chinês rondam 4% a.a., o norte-americano, 3% e o europeu, 4,5% —, é importante o reforço da política monetária para o combate aos efeitos secundários de uma inflação predominantemente de oferta. Definitivamente, não é trivial uma inflação projetada para 2022 de 10,5% no Reino Unido, 6,1 % na Alemanha, 4,3% nos EUA e 9% no Brasil. A inércia dessa pressão nos preços tem levado os bancos centrais a elevarem os juros básicos em conjunto. As nações emergentes começaram antes — o Brasil iniciou a alta da Selic em março de 2021 —, enquanto os países desenvolvidos, nitidamente “atrás da curva”, só vieram a subir suas respectivas taxas básicas a partir do começo de 2022.

O que mais impressiona é a resistência da inflação à elevação de juros no Brasil. Tenho 30 anos de carreira e é a primeira vez que vejo o banco central brasileiro subir substancialmente a taxa Selic (foram 1.075 pontos-base de aumento, de 2% para 12,75% até maio) e os índices de preços simplesmente não recuarem. A média dos núcleos de inflação persistentemente rodeia 1%, com os indicadores de difusão acima de 75%. Esse comportamento vai de encontro à teoria de que a potência da política monetária brasileira está mais forte devido à redução dos subsídios generalizados, sobretudo vindos do BNDES. Adicionalmente, apesar de eu considerar ter sido um exagero a queda da taxa Selic para 2% a.a. em um país com suas idiossincrasias como o Brasil (e a manutenção da taxa nesse patamar por um longo período de tempo), seria injusto criticar o trabalho do banco central brasileiro nesse momento.

Boas notícias

Dado que, volta e meia, surgem rumores sobre o eventual lançamento de medidas que ameaçam o teto de gastos, o mercado não dá o benefício da dúvida ao governo Bolsonaro. Porém, boas notícias concretas vêm do campo fiscal, como o fato de o País ter alcançado 1,6% do PIB de superávit primário, o que mostra a disciplina do governo. Tal política colabora para o País chegar a uma relação dívida bruta/PIB de 78%, afastando parcialmente o temor anterior de descontrole nas contas públicas brasileiras.

Outro fator que tem surpreendido é o crescimento econômico do Brasil. No início do ano, economistas projetavam um PIB negativo de até 1% para a economia nacional em 2022. Gradativamente, com a recuperação dos setores industrial, de varejo e serviços (nos últimos dois meses, todos registraram crescimento positivo), as estimativas viraram e hoje a perspectiva é de 1,5% de crescimento para o PIB. Os segmentos agrícola e exportador também devem se destacar, dado que não teremos quebra de safra. O mercado de trabalho, por sua vez, — apesar de muito calcado na economia informal — vem melhorando, e o desemprego já recuou para 10,5%. Programas como o Auxílio-Brasil e a liberação do FGTS para trabalhadores aumentam o dinheiro em circulação para consumo, o que deve gerar reflexos positivos sobre a demanda.

Riscos e obstáculos

A China é um capítulo à parte. Novamente aterrorizada por um novo surto de Covid, a segunda maior economia do planeta luta contra a perspectiva de crescimento mais baixo dos últimos anos. Como consequência, casas internacionais já rebaixaram o avanço do PIB chinês para até 3% ao ano. A grande vantagem dos chineses, porém, é que o índice de inflação do país é um dos mais baixos do mundo (2% ao ano), o que lhe permite, diferentemente do restante do planeta, dispor do afrouxamento de política monetária e fiscal para evitar o pior. Recentemente, o banco central chinês baixou as taxas de juros para empréstimos acima de cinco anos e anunciou corte de 21 bilhões de dólares em impostos, além de investimentos pesados em infraestrutura e nos segmentos imobiliário e de transportes.

Qual é o grande risco dessa história toda? Com o aperto generalizado da política monetária, a previsão é de queda pela metade das taxas de inflação pelos diversos países do mundo em 2023. O problema é que essa estimativa já existia parcialmente para 2022 e não se confirmou (muito pelo contrário). Se perceberem que os preços não param de subir, os bancos centrais serão obrigados a acelerar anda mais o ritmo de elevação da taxa de juros, provocando desequilíbrio nas diversas curvas, valorizando o dólar e afugentando recursos de ativos de risco.

Voltando ao começo do nosso texto, o mundo vive hoje algumas situações peculiares: se a China se livra da Covid e recupera seu nível de crescimento, tal fato é positivo para a atividade econômica mundial, mas empurraria o preço das commodities para cima, alimentando a inflação (o paradoxo chinês). Já se a Guerra da Ucrânia acabasse amanhã, a atividade econômica seria beneficiada e as cotações das commodities cairiam, o que é bom para a inflação. E respondendo finalmente à pergunta: os BCs estão certos em elevar os juros? A resposta é simples: esse pode não ser o remédio perfeito, mas não há outra opção tão eficiente para combater a onda de aumento de preços.

O desafio para os investidores é saber quando o teto de juros estará definido, facilitando a tomada de decisão em relação à entrada em ativos de risco. A espessa cortina de fumaça esconde nesse momento algumas ótimas oportunidades em bolsa e o aproveitamento mais confiante de taxas de juros elevadas que o mercado está oferecendo.

Alexandre Póvoa é estrategista da Meta Asset Management, CEO Valorando Consultoria e autor dos livros “Valuation”, “Como precificar ações” e “Mundo financeiro, o olhar de um gestor”.

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