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Grandes vergonhas, tristes pastiches
“Bolsonarismo” é apenas um rótulo de ocasião para o velho reacionarismo rançoso que sempre assolou o País
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O golpismo brasileiro começa (deixando fora o Império) com a própria proclamação da República — movimento defendido sinceramente por muitos, mas infiltrado pelos senhores de escravos. Mesmo indenizados, eles logo enxergaram a oportunidade da desforra contra o monarca e sua filha, a princesa Isabel, que, no ano anterior, assinara a Lei Áurea. Por acabar com a escravidão, ela recebeu ameaças de morte. Então, José do Patrocínio criou a Guarda Negra, formada pelos libertos, para proteger a princesa.

Pedro II recusou a pensão oferecida e foi-se embora, levando a sua cultura e o seu amor pelo País. O marechal Deodoro, monarquista e amigo do imperador, assumiu a presidência, mas, aparentemente decepcionado, retirou-se.

Floriano Peixoto, conhecido como Marechal de Ferro, encarou uma tentativa golpista de alguns generais e, depois, tomou pela proa a Revolta da Armada. Safou-se adquirindo uma frota moderna na Alemanha, com financiamento externo, a juros imódicos. A Armada brasileira refugiou-se nos mares do Sul.

Floriano desprezou as ideias patrióticas de Policarpo Quaresma, a quem mandou fuzilar. Faz tempo que os mandatários se confundem nesse quesito. E faz tempo que Floriano inaugurou a dinastia dos vices, até agora estacionada em Michel Temer, que assumiu após o impeachment de Dilma Rousseff, acusada por crime de responsabilidade, materializado em algumas pedaladas fiscais, que seus antecessores também praticaram.

Foi o que disseram, mas, dos bastidores, a gente não fica sabendo. Aproveitando a deixa, prenderam o então ex-presidente Lula. Talvez porque Lula seria reconduzido à presidência em 2018. Talvez.

Pior foi em 1964, quando prenderam todo mundo. O candidato preferido da direita barulhenta era Carlos Lacerda, com fortes apoiadores em São Paulo, mais uma vez enfrentando a silenciosa direita mineira, que contava com Juscelino Kubitschek. João Goulart também poderia correr o páreo, dependendo de uma reforma constitucional que, anos depois, seria feita por Fernando Henrique Cardoso.

A ameaça golpista voltou com força no período de Jair Bolsonaro, que desqualificava as instituições (e seus membros). Seria uma constante do seu mandato, prenunciada no próprio dia da posse, quando um de seus filhos aboletou-se no Rolls Royce presidencial, com os pés sobre o banco traseiro do veículo (histórico, desde Getúlio Vargas). Antes, durante a campanha de 2018, outro de seus filhos “ensinara” como se fecha o Supremo Tribunal Federal (“basta um cabo e um soldado”), antecipando a disposição golpista.

Outras pedaladas

Como se veria depois, o descontrolado golpismo bolsonarista não pretendia tomar o controle das instituições, mas desmontá-las. Bolsonaro também praticou as tais pedaladas fiscais (em volume muito maior), tanto que a manobra evasiva dos precatórios ficou conhecida como PEC do Calote. É que Dilma pedalava uma bicicleta e Bolsonaro preferia as motos, mais potentes. Estranhamente, dessa vez nada aconteceu. Talvez porque o presidente da Câmara nos tempos de Dilma (Eduardo Cunha) fosse mais afeito aos rigores da lei do que os seus sucessores.

Mas não deixaram de aplicar um golpe (consentido), conduzido pelo chamado Centrão, que teve origem numa tentativa de semigolpe. Conforme narrou o jurista Saulo Ramos (Código da vida, 2007), durante os trabalhos da Assembleia Constituinte, o então senador Fernando Henrique Cardoso tomou conta da Comissão de Sistematização (em dobradinha com o relator Bernardo Cabral, que depois seria o ministro da Justiça de Fernando Collor) e tentou emparedar o presidente José Sarney, instituindo o parlamentarismo e reduzindo a duração do mandato presidencial. Juridicamente (e politicamente), duas propostas subversivas.

Sarney (que já tinha mais tempo na política partidária do que FHC e Cabral somavam juntos) reagiu criando um bloco suprapartidário para impedir tais novidades desagradáveis. Conseguiu, é claro. Fica a questão sobre quem é responsável pelo surgimento do Centrão: o ovo ou a galinha?

Voltando ao passado recente, vimos as faces do chamado “bolsonarismo”. Que, na verdade, não existe, pelo menos no sentido que impulsionou, por exemplo, o “getulismo”, este lastreado em realizações nos campos político, social e econômico. Já o suposto bolsonarismo, sem concretude, usou representações (a arminha, atualizando a vassoura de Jânio Quadros), narrativas (negações da política, da ciência, da cultura, da educação) e apropriações indébitas (verde-amarelo, “homens de bem”, patriotismo).

Triste pastiche das máquinas de propaganda montadas pelos regimes extremistas nas décadas de 1920-30-40, com ênfase no culto à personalidade de lideranças demagógicas.

“Não visão”

Os veículos desses métodos já foram o rádio e o cinema. Agora são as redes eletrônicas, com mensagens inicialmente (e erroneamente) entendidas como expressões de ignorância ou meras falsidades. Não deixam de ser, claro. Mas, na verdade, resultam de técnicas elaboradas que visam causar indignação nos adversários (“inimigos”) e gargalhadas na central de produção, ainda que com alguns acidentes de percurso (um secretário de cultura, um gesto supremacista).

A par disso, os ataques à imprensa e o desmonte de órgãos públicos, da liturgia, das instituições e da sociedade civil organizada. Com o crescimento (financiado) das teses e fake news radicais, a direita tradicional escorregou no arrastão, teimando em impor seu modelo econômico, mesmo após sucessivas rejeições nas urnas.

É inevitável a associação desse modelo ao impulso dos radicais de direita, como se observa no mundo. Aqui, houve a união de veteranos rançosos com jovens petulantes, que serão os veteranos rançosos de amanhã (fora ou dentro do armário). Rejeitam o diálogo, a conciliação, a adequação. Prevalece o sentimento de imposição.

Não existe visão de país no chamado bolsonarismo: seu núcleo é estritamente familiar, concentrado no patriarca que tudo centraliza. Essa “não visão” é compartilhada pelo seu entorno, nos andares mais altos. Já o andar térreo e o subsolo imaginam um “avante Brasil”, ainda que andando para trás.

O que existiu foi um projeto de dominação (escolas cívico-militares, home schooling) e isso não sai da cabeça de um Steve ou de um Olavo (meros agentes). Tem financiamento e, portanto, seguindo a pista do dinheiro, chega-se aos ninhos.

Cheque em branco

Em 1960, a direita liberal, concentrada na UDN, praticamente melou a convenção partidária (como fez o PSDB nas prévias de 2018), quando possuía nomes conhecidos nacionalmente. Numa decisão que quase rachou o partido, acabou prevalecendo a ideia de se pendurar na candidatura Jânio Quadros, registrado pelo minúsculo PTN.

Em nosso (propositalmente) complicado sistema de eleições proporcionais, Tiririca pode até ser um bom puxador de votos, assim como artistas ou jogadores de futebol. Mas eleição presidencial é outro departamento, como o século vem demonstrando. Desde a volta das eleições diretas, a direita venceu as três primeiras, com Collor e FHC. Depois, perdeu todas (2018 foi o ano dos radicais).

Para voltar ao jogo, a direita precisa rever propostas, apresentar políticos aptos ao exercício do cargo (não os “postes”, mesmo que simpáticos, apresentadores de TV, como se ensaia desde 1989, ou os “desajustados bizarros”, para usar a expressão de Ian Kershaw). Principalmente, descolar dos extremistas em vez de se associar a eles — como, diga-se, uma grande parcela não o fez.

O Supremo Tribunal Federal, cujos ministros não dependem do voto popular, tem avançado em pautas progressistas. Mas o Congresso (onde os parlamentares dependem do processo eleitoral), de maioria conservadora, resiste. Significa que a direita tem muito espaço, mas desperdiça seu capital político com agendas que ignoram as desigualdades e as necessidades sociais.

Bolsonaro recebeu, praticamente, um cheque em branco, inclusive para os (maus) modos e para a falta de (mínima) compostura, desde que ignorasse as reivindicações incômodas dos grupos sociais indesejáveis.

Seu subproduto, o bolsonarismo, é apenas rótulo de ocasião para o velho reacionarismo rançoso que (sempre) assolou o País. E que poderia se chamar “eneismo”, caso o “Meu nome é Enéas” houvesse emplacado. Já se chamou “janismo”, um rótulo hoje esquecido, do qual nada restou.

O janismo deu origem a grandes e pequenas piadas. O bolsonarismo, a pequenas e grandes vergonhas. Os rótulos passam, mas o ranço segue indiferente às ideias, sugestões e receitas para queimar gorduras. Precisa de dietas e, desde já, deve cortar o (des) tempero radical.

Na bonita versão (Nada Mais, de Ronaldo Bastos) de Lately (Stevie Wonder), Gal Costa, em (mais uma) inspirada interpretação, canta “Não dá pra disfarçar / Dessa vez doeu demais”. Claro que a canção trata de relação amorosa, mas, como a gente vive fazendo analogias, os versos (e o título original) têm tudo a ver com o Brasil de meses atrás.

*Carlos Augusto Junqueira de Siqueira é advogado. Atuou como superintendente da Comissão de Valores Mobiliários e é autor dos livros Fechamento do capital social e Transferência do controle acionário

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