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ESG em tempos bicudos
A farsa e o pária na agenda ambiental, social e de governança no Brasil
Raphael Martins
Raphael Martins é sócio do Faoro Advogados | Ilustração de Julia Padula

No ano passado, uma companhia aberta brasileira divulgou, orgulhosa, seu relatório integrado. Em suas mais de 100 páginas, o material demonstrava, por meio de gráficos e um belo projeto visual, o alinhamento da empresa com a agenda ESG (ambiental, social e governança, na sigla anglicizada). A leitura conjunta com suas demonstrações financeiras, entretanto, lembrava a todos que a mesma companhia — tão satisfeita com as perspectivas de redução do seu footprint de carbono e com o aumento da diversidade de seu quadro de executivos — estava igualmente otimista com o fortalecimento de suas relações com o principal parceiro comercial — no caso, um regime autocrata que, neste momento, está promovendo o extermínio de uma minoria.

O curioso do relato acima é que, embora repleto de informações, ele não é nem de perto suficiente para se identificar os atores envolvidos. Por um lado, o número de empresas que se envolvem na mesma contradição é relevante. Por outro, não são poucos os países que podem ser qualificados como autocratas, perpetradores de violência contra minorias e relevantes importadores de produtos brasileiros. Não parece ser descabido, portanto, indagar: a agenda ESG no Brasil, levada a sério, já deixou de ser uma tragédia para se transformar em farsa?

Compromissos inalcançáveis

Já ficou banal a discussão sobre o greenwashing, isto é, a prática de companhias que, assim como fazem com a propaganda de seus produtos, adotam um discurso com pouca aderência à realidade. Exemplos típicos seriam as que se comprometem com metas de longuíssimo prazo e irrealistas ou mesmo irrelevantes como parte de sua agenda ESG. Num caso cômico, mas representativo, petroquímica anunciou que deixaria de emitir substância tóxica que nunca poderia ter sido gerada pelo processo produtivo então adotado, sob pena de violar leis das reações químicas.

Mas o que se discute aqui é algo mais complexo. A pauta ESG também possui suas próprias contradições, sem dúvida. Como se esquecer do entusiasmo com o uso de baterias elétricas em veículos automotores ao mesmo tempo em que se critica ou mesmo se desconsidera os impactos da produção dos insumos necessários para a confecção das referidas baterias. A despeito disso, como o ESG se tornou onipresente e inevitável, passa-se a exigir dos atores compromissos que, em uma análise realista, são inalcançáveis para o seu modelo de negócio ou mesmo para as alternativas economicamente viáveis. Empresas extrativistas devem deixar de abandonar o extrativismo, exportadoras precisam condicionar sua atuação a um julgamento subjetivíssimo e cambiante da situação geopolítica dos importadores, geradoras de energia não renovável devem alterar sua matriz para as fontes renováveis. E por aí vai.

À luz da impossibilidade de implementação da pauta ESG — ou, ao menos, desse modelo de pauta ESG — e das penalidades que o mercado impõe à desconsideração dela, caminha-se para o dilema intransponível de, por um lado, render-se à farsa ou virar o pária; por outro, aceitar a farsa ou abandonar opções relevantes do mercado.

Limites do ESG

Observe-se que essas escolhas, embora tendenciosas na formulação, têm sido feitas por agentes do mercado. Não são poucos os investidores que, por preocupações ESG, optam por vetar setores inteiros da economia, independentemente de discussões sobre múltiplos ou retorno. O que tem faltado, do lado das companhias, é uma discussão séria e transparente sobre o limite da implementação de uma pauta ESG dentro da organização, ou seja, quais as barreiras que não serão transpostas e qual o preço que os stakeholders pagarão por isso.

A falta dessa discussão mostra a aporia que se apresenta em momentos de crise como o atual conflito entre a Rússia e a Ucrânia. As inconsistências do discurso ESG de algumas empresas impõem seu preço quando precisam diferenciar o tratamento daquele estado agressor em comparação a outros em situação semelhante e que continuam ostentando o adjetivo de parceiro comercial.

Da forma como está sendo apresentado o contexto, caminha-se para a situação em que o comportamento da empresa nas situações críticas é determinado pela reação da torcida e não por uma avaliação consistente com os valores e princípios da organização — até mesmo pela ausência de uma reflexão sobre quais seriam eles. O amadurecimento do tema impõe que, assim como existe a discussão sobre o apetite de risco do management, dever-se-ia refletir sobre o apetite ESG e deixá-lo suficientemente transparente para o mercado. Afinal, não se deve esquecer que o G também integra o acrônimo.


Raphael Martins é sócio do Faoro Advogados

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