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“Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”
Elvira Presta, ex-CFO da Eletrobras e atual conselheira fiscal da Gerdau e da Embraer
Elvira Presta, ex-CFO da Eletrobras e atual conselheira fiscal da Gerdau e da Embraer

O famoso ditado que diz: ‘quem vê cara não vê coração’ parece fazer todo sentido para Elvira Cavalcanti Presta, a mulher por trás da privatização da Eletrobras. Durante os seis anos em que esteve na empresa, passando pelo cargo de conselheira independente até CFO, a executiva encontrou muitas amarras para conseguir concretizar aquela que ficou conhecida como uma das maiores desestatização do país.

“Foi uma experiência riquíssima, que transformou a minha carreira. Eu tinha construído uma carreira no setor privado, passei 25, 26 anos dentro dessas empresas, de diferentes de setores. Não foi um movimento, digamos, natural e planejado, mas a oportunidade surgiu e se você não aproveitar ela pode não voltar”, afirmou Elvira.

Para a executiva, a Eletrobras tinha uma série de assuntos que só ela possuía, como negociar a energia de Itaipu do lado brasileiro, usinas nucleares e empréstimos compulsórios, por exemplo. “Essas coisas eu precisava entender para saber como isso refletia nas demonstrações financeiras. Na época, a gente recebia muito feedback, até crítica, de que o balanço da Eletrobras era complicado demais, difícil de entender. Essa foi provavelmente uma das maiores complexidades que eu enfrentei”, conta.

Além da Eletrobras, que foi um momento marcante na sua carreira, Elvira, que conversou por quase uma hora com a Capital Aberto, ainda relatou como vê o papel do CFO em meio a tanta tecnologia, o atual momento do mercado de capitais, além de suas funções em conselhos fiscais e de auditoria em empresas como Gerdau, Embraer e Copa Energia.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

O mercado de capitais passa por um momento de grande volatilidade. Como você tem visto?

O mercado tem sofrido muito. Eu acho que tem tido muito resgate, principalmente dos fundos multimercados e de ações, já que as pessoas físicas se assustam e querem ir para investimentos em renda fixa. Eu acho que o mercado de capitais vive um momento curioso porque a gente sabe que o momento de investir é exatamente quando os preços estão depreciados. O pessoal tem medo de investir em renda variável. Mas, ao mesmo tempo, entra nesses jogos online, apostas esportivas, criptomoedas, que são arriscados. O investidor estrangeiro também está com aversão a risco. Então, se ele tem, nos Estados Unidos, uma taxa de juros elevada, por que ele vai correr risco em país emergente? Tem a questão do déficit fiscal muito alto e um governo resistente para cortar despesas. Esse desequilíbrio afasta o investidor estrangeiro.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Como você está vendo o papel do CFO na atual conjuntura?

Eu acho que a profissão de CFO está passando por uma transformação. Tem muitos desafios com essa taxa de juros alta. Isso é um desafio para o CFO em termos de gestão de dívida e alocação de capital. A gente vive um ciclo ruim no mercado de capitais também. Eu acho que não existe um IPO há três anos. O último follow-on relevante foi o da Eletrobras. O CFO, hoje, acaba sendo o braço direito do CEO. Ele tem que entender de estratégia, do negócio. O CFO precisa entender, inclusive, o que está acontecendo no cenário político. Tudo isso acaba agregando complexidade ao papel do profissional. Além disso, a inteligência artificial e a segurança cibernética têm se intensificado na profissão. Todos esses temas o profissional tem que acompanhar. É uma função muito nobre, mas que exige muita preparação, muito jogo de cintura.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Pegando o gancho da Eletrobras, como foi para você sair do setor privado e migrar para uma empresa pública?

Foi uma experiência riquíssima, que transformou a minha carreira. Eu tinha construído uma carreira no setor privado, passei 25, 26 anos dentro dessas empresas, de diferentes de setores, incluindo o setor elétrico. Não foi um movimento, digamos, natural e planejado, mas a oportunidade surgiu e se você não aproveitar ela pode não voltar. Eu entrei na Eletrobras em 2018 como conselheira independente, eleita pelos detentores de ações PN. Essa oportunidade surgiu por conta da Lei das Estatais, sancionada no governo Temer [Michel], que foi muito importante após os escândalos da Lava Jato. Quando eu entrei, a empresa precisava se adequar à Lei. Dentre as exigências, era ter um número mínimo de conselheiros independentes. Então, o meu nome acabou surgindo, muita gente me conhecia. Foi uma experiência muito boa, muito positiva, mas muito difícil porque quando você vem do setor privado para uma empresa estatal é um mundo muito diferente. Esse meu primeiro ano como conselheira foi muito rico, eu integrei o Comitê de Auditoria, numa época em que a Eletrobras já estava passando por uma grande transformação.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Passado um ano como conselheira, você é convidada para assumir o cargo de CFO da companhia. Como foi essa experiência?

Em 2019, eu recebi o convite do Wilson [Ferreira, CEO da companhia] e do presidente do conselho à época, José Monforte, para assumir a área financeira e de Relações com Investidores. Por conta disso, eu renunciei ao posto de conselheira independente. Continuando o que você me perguntou anteriormente, dessa mudança do setor privado para público, quando eu me sentei na cadeira de CFO é que tudo ficou mais claro. Eu me lembro que assim que eu assumi, o conselho tinha aprovado uma emissão de debêntures. Mas a empresa não fazia esse tipo de emissão porque estava acostumada a trabalhar com bancos públicos. Quando eu comecei a olhar internamente e pedir as coisas, eu descobri uma série de, digamos, não barreiras, mas de processos que eu não sabia que eu tinha que fazer. As pessoas falavam assim para mim, “ah, Elvira, mas a gente precisa passar pela Secretaria das Estatais, eles têm que aprovar”. Eu nem sabia que existia uma Secretaria das Estatais. Outra dificuldade que eu acho que sempre vale a pena ressaltar é que, diferentemente do setor privado, você não pode escolher a sua equipe porque ela é formada por pessoas concursadas. Eu tinha que conseguir conquistar a confiança da equipe. E, por eu ter vindo do privado, eu era vista com desconfiança.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Você consegue elencar a principal dificuldade econômico-financeira e burocrática dentro da Eletrobras?

Primeiro, o setor é muito regulado. Ou seja, por si só já é complexo. E a Eletrobras, como a empresa mais complexa do setor, tinha que gerir programas de governo como a comercialização da energia de Itaipu, usinas nucleares, além das contingências de empréstimos compulsórios do passado. A Eletrobras tinha uma série de assuntos que só ela possuía. E essas coisas eu precisava entender para saber como isso refletia nas demonstrações financeiras. Na época, a gente recebia muito feedback, até crítica, de que o balanço da Eletrobras era complicado demais, difícil de entender. Essa foi provavelmente uma das maiores complexidades que eu enfrentei.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Como foi a conclusão dos trabalhos dentro da Eletrobras? Uma sensação de dever cumprindo?

A temática da privatização da empresa voltou no governo Temer, que mandou uma Medida Provisória para o Congresso, mas que não foi votada. Em 2019, quando veio o governo Bolsonaro [Jair], houve, então, a segunda tentativa. O Projeto de Lei foi levado para o Congresso no final de 2019, mas depois veio a pandemia. Naturalmente, o Congresso passou a dar prioridade às medidas emergenciais da Covid-19. No começo de 2021, o governo federal veio com uma MP. Foi mais ou menos nesse período que o Wilson renunciou ao cargo de CEO. Nesse intervalo, eu fiquei aproximadamente dois meses acumulando o financeiro e a posição de CEO. Quando o novo CEO chegou, a MP já tinha sido aprovada e convertida em lei. Depois veio a parte burocrática, com a segregação de Itaipu, estruturar a oferta, rito de CVM e SEC. Mas ainda tinha o dia a dia da empresa. No final, a gente conseguiu concluir o trabalho em junho de 2022, enfrentando os sindicatos, ações judiciais, greve. Foi um processo muito truculento. A gente precisou ter muita força de vontade, muita resiliência, aguentar ataques pessoais. Eu enxergava nisso tudo uma oportunidade de contribuir para melhorar a gestão pública do país. 

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Depois da privatização, você ficou mais quanto tempo na empresa?

Eu fiquei um ano e pouco, que foi o período de transição, com a chegada dos novos conselheiros, nova diretoria. Eu encerrei o meu contrato no final de setembro de 2023. Foram seis anos muito difíceis, pesados, de muito trabalho, mas muito gratificante por ter feito parte de uma operação dessa magnitude, tão estratégica para o país. Foi realmente uma oportunidade de ouro.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Atualmente, você está participando de três conselhos. Como tem sido o trabalho na Gerdau, Embraer e Copa Energia?

Eu estou como conselheira fiscal na Gerdau e na Embraer, que são duas companhias de grande porte. O conselho fiscal é diferente do conselho de administração. No fiscal, a atribuição é de fiscalizar a administração, muito mais relacionado aos demonstrativos financeiros. É uma expertise que eu trago, principalmente por causa do período na Eletrobras. Está sendo uma experiência muito legal porque são setores que eu não conheço, por isso tenho que estudar. Eu já tive a oportunidade de visitar a fábrica da Embraer, mas ainda não tive a oportunidade de ir em uma das unidades da Gerdau, espero conseguir. Na Copa Energia, eu ingressei como membro do Comitê de Auditoria, é uma empresa que atua no segmento de gás, uma investida da Itaúsa. É uma empresa muito interessante e que está passando por um crescimento muito grande, uma transformação cultural. Está sendo bem interessante.

Eletrobras, “Foi um processo muito truculento, mas conseguimos entregar a privatização da Eletrobras”, Capital Aberto

Como é que você vê a sua atuação daqui para frente, diante de toda a experiência aqui relatada?

No momento, eu estou focada na atuação de conselhos. Nada impede que eu volte a atuar como CFO no futuro. Acho que vai depender muito de um projeto interessante, um projeto que me motive a participar. Isso acontecendo, eu vou ter que fazer uma escolha, porque não dá para estar em várias posições ao mesmo tempo. Eu estou no auge da minha capacidade produtiva. Certamente, com toda essa capacidade adquirida nos últimos anos, eu ainda posso voltar a atuar como C-Level.


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