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“O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”
Carlos Prates, general manager da Moody's para Brasil
Carlos Prates, general manager da Moody’s para Brasil

Muitas vezes os trabalhos das agências de riscos são questionados pelos seus métodos, inclusive, pela Faria Lima, acostumada a ter reuniões constantes para falar sobre uma determinada empresa. Pensando no mercado brasileiro, a Moody’s, maior agência do segmento do mundo, há alguns anos lançou uma unidade local, com o objetivo de fazer uma metodologia a lá Brasil.

Durante uma hora de conversa, no escritório da agência, localizado na JK, coração da Faria Lima, o general Manager da Moody’s para Brasil, Carlos Prates, explicou os detalhes da unidade e o objetivo do trabalho.

Além disso, o executivo explicou as diferenças entre os ratings, o mercado de dívida corporativa no país, que está muito aquecido este ano, o que o caso Americanas trouxe de ensinamento para a Moody’s e o investimento que a agência tem feito na Inteligência Artificial (IA) para ajudar na análise de dados.

Como não poderia deixar de ser, Prates também discorreu sobre a mudança de Outlook (perspectiva) do rating Ba2 do Brasil, que passou de estável para positiva no início de maio. Indagado sobre o Investment Grade, o general Manager da Moody’s disse que o país está tão longe de alcançar que não “é produtivo falar disso”.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Em 2021, a Moody’s lançou a unidade local. Qual era o objetivo?

A Moody’s por causa da crise de 2008 talvez tenha demorado muito para prestar atenção na América Latina e em mercados grandes como o Brasil. No pós-crise, a gente teve que lamber as nossas feridas. Somos líderes de ratings hoje e naquela época também éramos. Então, as nossas feridas eram maiores, eu diria. Foi naquela época justamente que os mercados domésticos começaram a se desenvolver, mais especificamente o brasileiro. Talvez a Moody’s tenha perdido o timing de olhar para ele e acreditar que seria algo promissor. Esse espaço, de certa forma, foi ocupado pela própria Fitch, que viu a força desses mercados e fez investimentos, tornando-se líder em praticamente todos os países. Passados dez anos da crise, a Moody’s percebeu que estava comendo bola. Pensamos. Quais são as dores do mercado de capitais brasileiro e o que a gente pode fazer para minimizar ou melhorar? A primeira delas foi a metodologia. Por isso, desenvolvemos um outro segmento dentro da Moody’s que a gente chama de Moody’s Local, que pilota as metodologias feitas para o Brasil. Agora, eu consigo tirar uma foto 4K. A partir do instante que eu tenho uma foto 4K contra uma foto analógica, a gente melhorou a prestação de serviço. Tiramos fotos iguais? Tiramos. Tiramos fotos do mesmo lugar? Tiramos. Mas do jeito que a gente faz hoje, a minha prestação de serviço é mais rica porque eu tenho mais ferramentas para alimentar.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Falando em rating, faz sentido olhar o local quando a emissão é lá fora?

Depende muito do mandato. Você vai olhar o rating lá fora quando o seu dinheiro está disputando entre todos os instrumentos dolarizados no mundo. Por exemplo, você precisa saber qual é o rating global da JBS por que você está decidindo se vai colocar o dinheiro nela ou em uma outra empresa de proteína do mundo? Se o seu mandato é investir em títulos em reais registrados na CVM e lastreados no Brasil, você tem que olhar o rating local. Se o seu mandato é investir em bonds, você tem que olhar o rating global. Usar o rating global para fins locais é como se você estivesse escrevendo com uma caneta ponta grossa e, portanto, a sua linha vai ficar grande demais. O rating local ajustando-o para o universo do Brasil, é como se você estivesse escrevendo com uma lapiseira 05.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Como é a metodologia para rating Soberano? 

O rating Soberano não tem nenhuma influência no rating Local. Imagina o seguinte, é como se o mercado doméstico fosse uma bolha e eu estou preocupado em entender quem é ‘AAA’ e quem é ‘CCC’ dentro da bolha. A grande vantagem da nossa nova metodologia é que eu já não fico mais influenciado pelo fato do Brasil ser mais contaminado, vamos dizer assim. Eu não trago uma variável que pode não ser sua. Por melhor que seja a empresa, às vezes, você está em um país, não é o caso do Brasil, em um país que não respeita as instituições, que é intervencionista, que pode correr o risco de confiscar seus recursos, que pode desapropriar sua fábrica. Você é muito bom, mas você pode ficar muito ruim da noite para o dia. Então, o Soberano para o micro funciona desse jeito. No macro, o Soberano também é comparativo. O que a gente tenta fazer é mais ou menos usando a mesma metodologia, comparar iguais, pegar países que tenham um perfil de crédito parecido com o do Brasil e compará-los.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

O Brasil ainda está muito longe do Investment Grade?

O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade. É como se você tivesse uma equipe de vendas e você estivesse contraindo metas inalcançáveis. A sua equipe vai olhar para aquela meta e vai falar assim, não vou nem sair de casa, porque eu não vou bater. A gente precisa, talvez, separar o caminho para o Investment Grade em pedaços. A Moody’s fez uma mudança de Outlook. É um passo de cada vez. Vamos ver se o Outlook se mantém, se as variáveis que o time analítico de Soberano está olhando vão se materializar para eventualmente conseguir um upgrade. A mudança de Outlook foi feita em função de Reformas aprovadas em dois governos atrás. Quer dizer, que maturaram e que mostraram que com essas reformas a gente consiga uma economia que cresça mais, que gere mais renda, ou que a gente tenha uma queda no custo de captação do governo, ou uma diminuição da dívida. O segredo, que eu acho que as agências de rating aprenderam ao longo do tempo, é separar ruído de som.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Como é que a Moody’s está avaliando o risco fiscal brasileiro?

Eu vou te falar um pouco do que o nosso time de Soberanos fala. Isso é uma boa oportunidade para explicar o quão cuidadoso é a análise de Soberano. Ela é feita por uma equipe que nem fica no Brasil, justamente para ter uma isenção, não ser contaminado por ruídos. No nosso caso, por exemplo, é uma egípcia que fica em Nova York. O que eu vou comentar agora é mais ou menos as coisas que o nosso time analítico produz. Quando você está olhando o perfil de crédito de um país, não é que o fiscal seja importante, mas o importante é como você está se financiando. A geração de receita vem, evidentemente, de impostos. E esses impostos são atrelados diretamente ao crescimento do PIB. E uma das razões para mudança de Outlook foi porque o crescimento do Brasil foi melhor do que a gente imaginava no período da pandemia e no pós-pandemia. A gente passou a pandemia muito menos ruim do que se imaginava e a gente saiu muito mais rápido do que se imaginava. Então, da parte de geração de recursos, essa é uma das variáveis que a gente leva em consideração. Ou seja, o fiscal, na verdade, é um meio do caminho para você entender para onde você quer ir. A estrutura de dívida do Brasil não é dolarizada. Se comparado aos nossos pares, por exemplo, a gente resolve todo o nosso problema aqui dentro. A dívida é toda financiada pelo mercado doméstico. Isso é uma tremenda fortaleza.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

O mercado de dívida corporativa está aquecido este ano. Como a Moody’s tem visto o comportamento?

Temos que olhar para o mercado com um equilíbrio de fatores. A gente teve dois eventos marcantes no mercado que forçou a um reequilíbrio dos investimentos no mercado local. O primeiro deles foi a mudança das regras dos isentos e a segunda foi a derrocada da indústria de fundos. Então, de alguma forma, você meio que forçou os investidores a realocar os seus ativos e procurar outras opções para conseguir retornos maiores ou ter algum tipo de exposição ao risco. Dado esse cenário, na qual a indústria de fundos perdeu muito recurso e os isentos ficaram mais complicados, a dívida corporativa acabou surgindo quase como a solução perfeita. O mercado brasileiro é muito desenvolvido na indústria de investimentos. Eu falo que ele é desenvolvido, apesar de estar em desenvolvimento. Ele é desenvolvido porque ele tem todos os tipos de empresa que você puder imaginar. Ele tem produtos sofisticados. Mas por que eu digo que ele é um mercado em desenvolvimento? Porque ele ainda pega uma parcela muito pequena do financiamento das indústrias no Brasil. O mercado como um todo ainda é extremamente concentrado nos bancos, na qual a principal fonte de financiamento são os bancos e não o mercado de capitais. Em alguns casos até parece que é mercado de capitais, mas são bancos lastreados por títulos.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Os juros pós-pandemia vão ficar mais alto ao redor do mundo. Isso ajuda para o desenvolvimento da indústria?

Evidentemente que quanto menor o juro, melhor para os instrumentos de captação. Como a gente aqui está falando de risco de crédito, a gente sempre está falando de um spread. Então, a gente está sempre falando de uma taxa de juros básica mais alguma coisa. Para o bem do mercado de capitais de dívida, é importante que a taxa de juros fique o mais baixo possível. E aí, o contrário também é verdadeiro, quer dizer, quanto mais alta a taxa de juros, mais difícil fica para as empresas captarem e virem ao mercado captar, mesmo que ela seja um ‘AAA’.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

No Brasil, como a Moody’s avalia instrumentos de dívidas como debêntures e FIDCs

Isso é o nosso mercado. Quer dizer, a gente, durante muito tempo, talvez tenha ficado muito baseado nos isentos. E os isentos ligam com a pessoa física, que é quem tem a isenção. Talvez, agora, com as novas regras, a gente vai ter um mercado que vai migrar, ou ficar um pouco menos concentrado nos isentos. Devemos começar a ter um equilíbrio. Quer dizer, o investidor pessoa física tem um tipo de comportamento, o investidor institucional tem outro tipo de comportamento. Nós avaliamos todos esses instrumentos, qualquer instrumento registrado na CVM. Mais do que isso, com a estrutura da Moody’s Local, a gente está aqui para tentar avaliar, eventualmente, até novos instrumentos que possam vir ao mercado. O Fiagro não decolou como todo mundo imaginava. Eu me lembro de ter conversas com players do setor que achavam que iria faltar CRA. Vamos ter que começar a achar outras fontes de originação, porque a gente vai ficar sem lastro. Mas o Fiagro não veio e as regras dos CRIs e CRAs agora mudaram. Todo esse crescimento para a gente é positivo, não importa muito de onde venha.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Você tem alguma percepção do porquê o Fiagro não decolou?

Eu não sei. Mas eu acho que o mercado brasileiro sempre que ele tiver mais opções vai ser melhor. A gente não deveria desestimular porque um determinado produto não decolou ainda ou está demorando para decolar. Traga mais produtos, ajude a botar de pé mais instrumentos. Muito provavelmente em algum momento você vai ver o Fiagro cabendo em alguma estrutura.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Após o caso Americanas, como é que a Moody’s está se blindando?

Essa é uma boa pergunta. Qual foi a grande mudança que a gente acabou implementando aqui no pós-Americanas? Não trabalhamos mais com balanço que não seja auditado, embora no caso Americanas não teria adiantado nada. Esse foi um novo nível metodológico de controle que a gente instituiu. Um detalhe, o caso Americanas é muito interessante para explicar para o mercado um pouco melhor o que a gente faz. No começo, éramos colocados no mesmo bolo das empresas de auditoria. Isso é uma boa oportunidade para explicar que não. A gente é quem lida com as informações que não são passadas. Quando a Moody’s é contratada por alguém, a gente vai pedir toda a documentação, fazer todas as nossas checagens para ter o mínimo de confiança que aquela documentação é correta. Ou seja, se um balanço fraudado nos foi entregue, a gente vai entregar um rating que não é o correto. Eu acho que, dado tudo que está surgindo (Americanas), nem as próprias empresas de auditoria teria conseguido pegar. É um caso muito específico. Isso de alguma forma tornou o mercado mais forte. Hoje, eu diria que o mercado considera o caso Americanas uma página virada. A gente não tem nenhuma grande cicatriz. A gente talvez tenha machucados que sararam.

Moody's, “O Brasil está tão longe que não é produtivo falar em Investment Grade”, Capital Aberto

Na era da IA, como a Moody’s tem usado a tecnologia a seu favor?

A gente foi uma das primeiras empresas a anunciar uma parceria com a Microsoft. Se tem algo que a gente tem de muito relevante, além das análises que a gente faz, são os dados. A gente tem o maior banco de dados de empresas do mundo. Acabamos de atingir um marco de 500 milhões de empresas dentro do nosso banco de dados no mundo. Como a IA é tão poderosa, a gente se viu numa posição estratégica interessante. Nós falamos, poxa, parece que a IA é para a gente. A nossa IA ainda é regenerativa, então ela precisa aprender. A gente está ensinando-a dentro do nosso universo e acreditamos que ela pode ajudar bastante na análise desses dados.


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